segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

RECUERDOS DE CURITIBA

O Aeroporto Afonso Pena, em Curitiba, foi meu campeão de aterrisagens e decolagens em 2011. Fomos que fomos pro Paraná! E depois das férias vamos começar 2012 descendo lá também - em plena terça feira gorda! - e indo até Santa Catarina para fechar o festival Psicodhalia, em Rio Negrinho. Então posto aqui dois dos muitos bons momentos paranaenses, como por exemplo...

...pilotar o Karmann do meu amigo Padreco - não tem preço!



...e cantar em praça pública com o fantástico Coral Brasileirão pra depois tirar uma foto no camarim com os novos amigos de música... também não tem preço!
ONOCÊONÉKOTÔ

               

                Um belo dia acordei sem saber onde estava. É isso. Pode perguntar a qualquer um de nós, artistas de estrada, que fazem às vezes vários shows seguidos, cidade após cidade, naquilo que os de língua inglesa chamam de “one night stand”, que esse um vai te repetir minha frase inicial: “um dia acordei sem saber onde estava”...
                Primeiro remexi a gaveta de cabeceira atrás de algum papel que me esclarecesse: nada. Esqueci a preguiça e andei pelo quarto procurando uma identificação do hotel. Achei uma pomposa pasta de couro com um caprichado papel de carta do “Real Palace Hotel”. Quantos “Real Palace Hotel” eu conhecia na minha vida àquela altura de mais de trinta anos de carreira? Uns cem. Pra complicar, um pequeno problema: o papel de carta só trazia mesmo logo e nome do estabelecimento. Nada de endereço e nenhum envelope esclarecedor. Telefonar pra portaria? Jamais. Haveria de haver outro jeito de descobrir meu paradeiro sem pagar esse gigantesco mico. Lembrei-me da música do Nelsinho Ângelo, com seu título em primoroso mineirês nipônico: “Onocêonékotô”. Lembrei também de Mick Jagger, que em manhã semelhante à minha – diz o folclore – abriu de golpe as cortinas da sua suíte presidencial no último andar de um luxuoso hotel paulistano e ao ver a paisagem desmesuradamente urbana da Paulicéia, berrou em desespero: “What?! Chicago? I hate Chicago!” (Quê? Chicago? Odeio Chicago!)
                Claro! Eu tinha que dar uma de Mick Jagger e abrir de golpe as cortinas da minha suíte, certamente mais modesta, mas não menos cortinada. Tinha cortina pra todo o lado, cortinas pesadas, solenes, de um dourado escuro quase principesco, cheias de laçarotes e ornatos desnecessários. Olhei de um lado pro outro: elas cercavam a suíte por três lados, deixando à mostra apenas a saída para uma saleta onde ficava a porta do banheiro. Pensei comigo que seria certamente o hotel de uma cidade de certo porte, pois apesar da decoração meio over fui verificando que a suíte tinha bons recursos: banheira de hidromassagem, chuveiro decente – sem um daqueles malditos chuveiros elétricos, que eu particularmente odeio... - e frigobar sortido, inclusive com duas garrafinhas de Chandon estrategicamente colocadas na porta, que suplicavam à la Alice no País das Maravilhas: “Beba-me, beba-me!”. Desviei o olhar e o espírito das Chandon e concentrei-me no problema presente: qual das cortinas abrir primeiro? Escolhi a da esquerda e mickjaggerianamente tentei abri-la de golpe. Inútil. Ela gemeu, sacudiu, revelou um pouco de parede e mais nada. Olhei para cima e vi o que parecia uma espécie de motorzinho junto ao trilho. O quê? Cortina elétrica? Meu Deus, onde eu estava? Boston? Roma? Campinas? Corri para a cabeceira e vi um monte daqueles controleszinhos, botõezinhos e etceteras. No canto direito, três interruptores tinham cara de cortina. Mexi num e a cortina do centro resmungou, cedeu e abriu-se lentamente, mostrando uma parede branca, muda e inerte. Comecei a pensar seriamente nas histórias de ficção científica que eu lera abusivamente pelos 70 afora. Abduzido? Mexi noutro e cortina da direita, emitindo os mesmos sons misteriosos, mostrou um basculante horroroso que dava para uma sinistrésima e apertada coluna interna de... Ventilação?! A ampla suíte agora já me parecia meio claustrofóbica. Bom, aquela terceira cortina tinha certamente que se abrir para alguma coisa, embora o silêncio ali dentro fosse total. Uma janela acústica? Qual não foi minha surpresa ao ver no quarto em frente do outro lado da minha afinal janela, separado de mim por uns cinco metros do vão livre de uma bem iluminada área interna do prédio, meu empresário, Chico Calabro, fumando placidamente um charuto. Ao abrir o janelão, senti o aroma inconfundível de um dos Romeo y Julieta que eu trouxera de Cuba para ele pouco tempo antes. Ouvindo o ruído da janela, Chico me viu e enviou-me um sorriso de Mona Lisa. Acho que as pessoas que fumam um Romeo desses tendem a sorrir daquele jeito. Tentei sorrir da mesma maneira – claro que, devido às circunstâncias, falhei – e mandei um bom dia chocho, pensando em como chegar ao assunto que mais me interessava naquela hora, ou seja, em que droga de pedaço do Brasil ou do Mundo eu estava.
-Aêêê... – foi tudo que consegui falar
- Fala Sá! Tá assim ainda, meu bom? Vamos descer em quinze minutos.
                Olhei por cima do ombro para o caos que reinava no meu pedaço. Ele continuou, empresário e produtor até a raiz dos cabelos:
- São seis horas de viagem até...
                Até... Até onde, caramba?! Não é que justamente naquela hora o telefone dele tocou e fez com que ele saísse da janela pra atender e sumisse nas profundas do quarto antes de completar a frase.
                 A coisa toda agora assumia um ar hitchcockiano e eu resolvi achar graça naquilo, já que me recusava a encarar a possibilidade de ter meia dúzia de manés me enchendo o saco no... Avião? Ônibus? Carro?!  Porque onossabiaonécotava, sacumé?... Parti pra arrumar minhas coisas e falei de mim para comigo:
- Não interessa onde estou. Estou com minha banda, meu parceiro, meu empresário, meus amigos, estou bem, minha carreira vai ótima, estamos fazendo tanto show que... Onocêonékotô!
                Aí caí numa irresistível gargalhada, lembrando do Nelsinho Ângelo me contando das circunstâncias que o tinham levado a compor aquela música. Resolvi então manter o mistério para mim mesmo, desistindo até da ideia que acabara de me ocorrer: ligar o GPS do meu N85 pra me localizar. Liguei pro celular do Chico e pedi que ele fechasse a conta pra mim. Arrumei a mala, coloquei os fones de ouvido, aumentei o volume do N85, desci e me enfiei direto no ônibus que o Chico me indicou. A única coisa que eu percebi, ouvindo o português das pessoas na recepção, é que do Brasil eu não tinha saído. Sequer me esforcei para definir o sotaque.       No confortável leito do andar de baixo do ônibus, fechei as cortinas e continuei concentrado em meus fones. Acabei por dormir profundamente e fui despertado pelo Chico, chegados e já noite:
- Corre aí, sobe no quarto e toma um banho rápido que não vai dar nem pra passar o som. O show é em praça pública.
                Na correria, soube que o ônibus tivera problemas e estávamos em cima da hora. Saí direto do banho pro show. E na hora de saudar o público, que lotava a bela e arborizadíssima praça de não-sei-onde, só pude dizer um “e aí, pessoal” em vez do meu tradicional “boa nooooite, (nome da cidade)”. Qual cidade?!
                E o melhor, ou pior, ou mais estranho de tudo é que eu não consigo me lembrar de onde foi mesmo que isso aconteceu... Onocêonécotive!

sábado, 21 de janeiro de 2012

HAIS-NÃO-KAIS

1.Por sua causa,
   Foi preciso endurecer
   E perder a ternura até mais não poder

2. Quem deve
    Não treme:
    Geme.

3. Fora com tudo
      Que atrasa o fim do mudo


  

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

VIDA DE ARTISTA

   
OS PRÉ-TUDO

                Todos os que começam na música são pré: pré-instrumentistas, pré- compositores, pré-cantores, enfim, pré-tudo. E essa fase pré é de doer, na paciência e no ouvido dos outros, já que nem Mozart nasceu sabendo. Não me façam pagar aqui o mico de mostrar pra vocês as minhas primeiras letras, ou as minhas primeiras melodias: só meus pais gostavam. Não só gostavam como também insistiam para que eu as mostrasse aos seus amigos, Era de dar pena ver o esforço que precedia os aplausos e sorrisos amarelos... Mas não desanimei: consegui finalmente compor umas coisinhas aceitáveis, quer dizer, aceitáveis dentro da minha tchurma adolescente, que tentava também achar seus caminhos musicais, fossem eles rumo ao palco ou à platéia e lá pelos dezessete já me achava o máximo porque ganhava as menininhas. Só depois de percorrer mais um longo caminho até a completa profissionalização é que percebi o quão mínimo eu tinha sido. Mas como ser pós sem ser pré? Entendam bem que não estou desvalorizando os pré, apenas constato a verdade: ouvir ou trabalhar com um pré quando você já é pós exige uma poderosa dose de humildade. Você só chega à perfeição de aturar um pré quando consegue ser um cara humilde – ou falso – o suficiente para aplaudir e sorrir com o mesmo amarelão físico e mental com que foi recebido nos seus tempos - pré. A vida é essa, receber um pouco mais e dar um pouco menos.
                Repare nas festinhas e reuniões adolescentes: há sempre um ou mais prés zumbindo por ali, aguardando ansiosos a hora da canja, quando poderão mostrar que ainda não sabem o que pensam saber. A coisa começa na hora da afinação: os prés parecem desconhecer a existência dos afinadores eletrônicos e insistem em confiar nos seus ouvidos. Aí, já viu... Fora isso, os prés tendem também a confundir incompetência com criatividade e lascam os mais esotéricos solos do planeta, justamente na hora em que o pré-cantor está quase afinando. Mas repare também nos amigos orgulhosos e nas (os) namoradas (os) dos prés, de olhos brilhantes e/ou apaixonados, marcando com fé o inevitável atravessado do inexperiente pré-baterista: eles são os motores daqueles teco-tecos que podem se transformar em jatos de última geração, movidos por sua persistência e pelo entusiasmo dos companheiros. Ou, se quiser um contato mais íntimo com os prés, dê uma zapeada no seu rádio: você vai ouvir alguns dos pré-sortudos que mesmo sem nunca sair dessa categoria ainda conseguem ganhar um troco com música, eh, eh, eh...
                Nunca fui arrogante com prés, a não ser com aqueles cheios de si e vazios de talento o suficiente para me irritar. Lembro-me de um diálogo numa festa oferecida a nós depois de um show que resultou ser apenas uma armação para que tivéssemos que ouvir o filho do dono da casa, playboyzinho metido e mimado. Cansado pela sucessão de viagens e já meio tocado pelo excelente scotch do patriarca, fui obrigado a escutar meia hora de lenga-lenga pseudo intelectual do mané (os Manoéis que me perdoem) em questão, que fechou o discurso com esta pérola:
- O problema é que eu sou a verdade e as pessoas ainda não aprenderam a me ouvir.
                Virou-se para a pequena platéia de puxa-sacos e parasitas que o aplaudira depois da última “música” que ele perpetrara na maior cara-de-pau e completou, tirando o cabelo da testa em falso fastio de pré-poeta:
- Tem que ser especial pra entender a verdade quando ela é dita.
                Depois de brevíssimos segundos de incredulidade geral em que nem mesmo os mais chegados a ele acreditaram no que ouviam, retomei o sangue frio, deixei o uísque na mesinha ao lado, olhei bem dentro dos olhos da figura e falei a única coisa que me veio à cabeça, um bordão de humorista de TV que eu ouvira na noite anterior:
- Então me engana que eu gosto.
                Depois de outro segundo de absoluto silencio, a sala rompeu numa gargalhada uníssona. Aproveitei o momento de sucesso e fui saindo de fininho (ou de “grossinho”?), acompanhado pela minha fiel entourage. Fiquei surpreso quando nos percebi seguidos por mais de metade da sala, o que fez com que eu promovesse os ex-puxa-sacos-parasitas a “Gente Antenada”. Por uma estranha coincidência, nunca mais fomos chamados de volta àquela cidade. O cara deve ser dono de lá até hoje, o que significa que o Brasil perdeu um péssimo músico, mas certamente ganhou um político pior ainda.
                Por outro lado, assisti à ascensão de prés que eu jamais acreditaria que viessem dar em alguma coisa. Por exemplo, eu freqüentava, já quase pós-pré, mas ainda bem pré-pós, a casa tijucana do multi-instrumentista Helio Celso, um músico genial, injustamente desconhecido do grande público, mas referência em nossa geração. E lá ia sempre um baixista gordinho de óculos, que falava muito e – na época - tocava pouco. Nós o chamávamos de Luiz “Bicão”. “Bico de Luz” em gíria de músico é aquele que está “por fora”, quer dizer, não entende nada do ramo. Pois bem, Luiz “Bicão” estudou, batalhou, escutou e acabou por transformar-se no genial Luizão Maia, um dos baixistas mais requisitados e de maior personalidade da música brasileira, parceiro indispensável de gente como Chico Buarque, Gil, Gal, Ellis, Paulinho da Viola e inúmeros outros nacionais e internacionais. Meu querido amigo Luizão, com quem dei muita risada lembrando aqueles árduos tempos tijucanos, partiu precocemente, mas deixou no seu instrumento herdeiros do naipe de Artur Maia, seu sobrinho e Zé Luís Maia, seu filho.
                Há então, prés e prés. Mas se você é pré, siga o conselho de um que já foi e sofreu muito por isso: estude à vera, ouça de tudo, pratique demais e antes de qualquer coisa saiba  rir de si mesmo e aprender com os que riem de você. Muita calma nessa hora, quando a autocrítica lúcida é essencial. Seja um pré decente para ser um pós consciente, porque um pós consciente pode ajudar muitos prés decentes. Entendeu?
                Se não entendeu, então nem se meta a pré!


minha coluna "Vida de Artista" sai todo mês na revista BackStage

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

FÉRIAS!


Mar pra mim é uma fonte inesgotável de lembranças. Sentir o aroma da maresia e a pele crestada de sol e sal me trazem deliciosos flashbacks, desde as férias de infância na praia da Freguesia, numa então ainda bucólica Ilha do Governador, passando pela adolescência tijucana de fins de semana na Barra da Tijuca ainda longe de virar esse paliteiro (desculpem o ataque nostálgico, mas quem não viu a Barra na década de 60 perdeu o paraíso...) e desembocando na casa de Luhli e Luiz Fernando, em Filgueiras, onde passávamos o verão tocando, compondo e navegando. Desde que me mudei do Rio e troquei as maravilhas marinhas pelas serranas de Minas - que não são poucas nem menos maravilhosas - eu tinha programado em minha cabeça esses quinze dias de férias al mare e cá estou eu, pé na areia branca e corpo na água inacreditavelmente azul-turquesa. Ficam as fotos de Verlaine, minha mulher, pra compartilhar com vocês duas coisas: a felicidade de estar aqui e a saudade de estar aí. Dia 26 de novembro estaremos de volta aos palcos em Araxá. Até lá!

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Onde Fomos, Onde Iremos...

6 de agosto - Sá & Guarabyra e banda - Suzano, SP

12 de agosto - Sá & Guarabyra e banda - Campo Grande , MS


20 de agosto - Sá & Guarabyra e banda - Montes Claros, MG


26 de agosto - Sá & Guarabyra e banda - SESC Sao Jose dos Campos, SP


23 de setembro - Sá & Guarabyra e banda - Lagoa Santa, MG - praça pública


20 de outubro - Sá & Guarabyra - Teatro Guararapes - Olinda,PE

27 de outubro - Sá & Guarabyra & banda - Teatro Paulo Machado (SESC São Caetano) - São Caetano, SP


6 de novembro - Sá & Guarabyra, orquestra e coro - Virada Cultural de Curitiba, PR


26 de novembro - Sá & Guarabyra e banda - Araxá, MG


12 de dezembro - Sá & Guarabyra - Curitiba, PR (Evento Fechado)

21 de fevereiro - Sá & Guarabyra e banda - Rio Negrinho, SC - Festival Psicodahlia





segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Mais Flagras da Vida de Artista...


Em 16 de agosto passado, no show pela imediata duplicação da Rodovia do Morte (como é tristemente apelidada a BH-Vitória) encontrei grandes amigos, entre os quais (da esq.pra direita) Serjão, tecladista do 14Bis, Telo Borges, Claudio Venturini e Aggeu Marques, na foto com um casal de amigos.



O povo de João Monlevade, onde o show foi realizado em praça pública, compareceu em massa, apoiando a iniciativa do Aggeu, que além de excelente músico é médico na cidade e tem assim conhecimento de causa, lidando diáriamente com as tragédias que nela acontecem, como o recente acidente com o ônibus da banda 14Bis, que tirou a vida de nosso querido amigo Teacher, tio do baixista Sergio Magrão e assistente de produção da banda.

LANÇAMENTO DO LIVRO "SOLAR DA FOSSA"...

Gravei o "Almanaque" da GloboNews com o autor, Toninho Vaz (acima à esquerda), a apresentadora e repórter Sandra Moreyra (acima à direita) e o poeta e letrista Abel Silva (abaixo à esquerda), numa tarde super agradável no La Fiorentina, Leme, Rio.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

VIDA DE ARTISTA - minha coluna na BackStage

NANA E O ÚLTIMO DESEJO

Estou no Teatro Municipal do Rio, concorrendo ao 22o. Premio da Música Brasileira 2011, indicados que fomos (Sá, Rodrix & Guarabyra) na categoria de melhor grupo. Por sinal, já perdemos essa: Os Cariocas levaram o troféu, o que significa para nós uma derrota honrosa. Mas o espetáculo está valendo a viagem: o homenageado é Noel Rosa e começamos com Paulinho da Viola e sua filha Beatriz Faria, ele enfeitiçando a Vila com aquela indizível elegância de sempre, e depois, com a filha à altura do pai (o que é muito além do que poderia sonhar uma novata, mesmo contando com a genética), suingando o “Palpite Infeliz”. E logo em seguida, vejam só, “Feitio de Oração” com Dori Caymmi! É muito? Não. Porque agora Dori chamou Nana. E ela começou a cantar “Último Desejo”.

“Nosso amor, que eu não esqueço

E que teve seu começo

Numa festa de São João...”


Todos sabemos que Nana Caymmi é uma cantora extraordinária, timbre, técnica e emoção unidos numa combinação rara. Mas tenho a impressão de que hoje ela resolveu superar-se. A pequena - mas afiadíssima! - orquestra e o arranjo impecável ajudam Nana a navegar pelos versos únicos de Noel. Lá vai ela:

“...morre hoje sem foguete

Sem retrato e sem bilhete

Sem luar e sem violão...”

Se houvesse uma mosca voando no teatro, ela seria ouvida. O silêncio da platéia, sem um sussurro sequer naquele Municipal lotado, é quase tão deslumbrante quanto a Voz da Cantora.

“Perto de você me calo,

tudo penso, nada falo

Tenho medo de chorar...”

Quem está ficando com medo de chorar sou eu. Nos anos 50, mal passada década e meia da morte de Noel, eu era criança, nascido e crescendo na minha Vila Isabel. Comprava meus brinquedos nas Lojas Trindade, meus remédios chegavam da Farmácia Montanha, a comida vinha do então Armazém Sendas, minha escola era a República Argentina e eu brincava nas matinês carnavalescas da Associação Atlética Vila Isabel, da qual, aliás, meu pai era presidente de vez em quando. Sylvio Sá conseguia juntar seu trabalho duro e burocrático num cartório do Centro às rodas boêmias da Vila. Volta e meia chegava do batente já com a turma armada para a seresta noturna:”hoje vai ter, dizia ele. E à noite, na varanda da Major Barros 32 apartamento 201, os violões e cavaquinhos atacavam com tudo, varando a noite. Minha família toda cantava: pai, mãe, irmã mais velha, cunhado, primas... até eu tinha minha chance de subir na cadeirinha e cantar... adivinha qual era minha preferida? Isso mesmo: “Último Desejo”.

“Nunca mais quero teu beijo

Mas meu último desejo

Você não pode negar”

A essa altura aquela seletíssima platéia de músicos, compositores, maestros, arranjadores, instrumentistas, sertanejos, sambistas, roqueiros, enfim, todos os eiros, istas e ores que estavam ali a bordo de suas partituras mais ou menos sofisticadas, dos mais populares aos mais – digamos assim – sofisticados, estavam de bocas e corações abertos, mesmerizados pela espantosamente emocionante interpretação de Nana. Não ousávamos olhar uns para os outros, pois descobriríamos ali mesmo nossos segredos mais escondidos, desencavados por aquela tempestade de sentimentos que se projetava do palco. A essa altura Nana não era mais Nana, era uma espécie de médium que “recebia” Noel...

“Se alguma pessoa amiga pedir que você lhe diga

Se você me quer ou não

Diga sempre que me adora, que você lamenta e chora

A nossa separação”

Quem, senão Noel, teria a sensibilidade de pedir à ex-amada este último desejo? Lamentar o bem vivido aos amigos, para que mais amigos fossem e o mal vivido aos inimigos, para que estes mais se afastassem...

“E às pessoas que detesto

Diga sempre que eu não presto

Que meu lar é um botequim”

Nana está terminando. Seu gestual é simples, despojado, comandado apenas pelo sentimento, sem nenhuma ambição de forçar a barra, sem nenhum dramatismo extrapolado. Ela sabe mostrar a Lágrima Interior, aquela que aparece sem chorar. Sua voz grave e única ressoa por um Municipal em êxtase:

“Que eu arruinei sua vida

E não mereço a comida

Que você pagou pra mim”

O final é simples, sem nenhum rebuscamento. Nana se afasta do microfone. Depois de um milissegundo de “o que foi isso?!” o Teatro Municipal – platéia, balcões e torrinha – simplesmente explode, aos urros e aplausos. Levanto-me da poltrona, ejetado por aquela força emocional que só nos atinge em ocasiões muito, muito, especiais e urro junto com o resto do público. Todo mundo está de pé, todos estão de acordo comigo: nunca existiu um “Último Desejo” igual aquele que Nana nos mostrou.
Só não chorei ali por idiota que sou. Mas prometo aqui, de público, que no meu próximo encontro com Nana Caymmi – tomara que seja logo – vou abraçá-la com todo o meu carinho de amigo e chorar mansamente em seu ombro. Ela certamente vai me perguntar por que e eu vou dizer a ela que choro por aquelas noites de música em Vila Isabel, pelo sorriso feliz de meu ido pai, pela varanda tranqüila da Major Barros, pelas vozes que não posso mais ouvir, pela alegria de poder tocar, cantar e compor e pelo jovem de vinte e seis anos que nos proporcionou – através dela – aqueles três minutos e pouco essenciais para qualquer ser que considere a música uma parte importante de sua vida.

domingo, 22 de maio de 2011

AOS SEGUIDORES...

Queria agradecer aos seguidores deste blog, meus amigos virtuais, e avisar que apenas publico os comentários pois infelizmente não consigo ter tempo para respondê-los, como gostaria. Mas fiquem certo que leio todos.Seus depoimentos, elogios ou críticas, são essenciais para minha evolução pessoal e profissional, pois acredito que quem não ouve com atenção não consegue falar com expressão. Fiquem ligados no próximo lançamento do site da dupla, www.saeguarabyra.com.br, que está demorando um pouco por questões de liberação de direitos, mas deve estar na web em cerca de dois meses mais.
E - como diria meu amigo Tavito - abraços a quem de abraços e beijos a quem de beijos!

quinta-feira, 17 de março de 2011

Onde Fomos, Onde Iremos...

6 de agosto - Sá & Guarabyra e banda - Suzano, SP

12 de agosto - Sá & Guarabyra e banda - Campo Grande , MS


20 de agosto - Sá & Guarabyra e banda - Montes Claros, MG


26 de agosto - Sá & Guarabyra e banda - SESC Sao Jose dos Campos, SP


23 de setembro - Sá & Guarabyra e banda - Lagoa Santa, MG - praça pública

 
20 de outubro - Sá & Guarabyra - Teatro Guararapes - Olinda,PE


27 de outubro - Sá & Guarabyra & banda - SESC São Caetano - São Caetano, SP


6 de novembro - Sá & Guarabyra - Curitiba, PR





segunda-feira, 20 de setembro de 2010

"AMANHÃ" : a crítica se manifestou sobre o último CD de Sá, Rodrix & Guarabyra

" 'Amanhã', produzido por Tavito, é uma bonita última prova de uma reunião de ótimos artistas e irmãos de vida e música"
O Globo (RJ) / João Pimentel

" O álbum 'Amanhã' se destaca por trazer o trio na velha e boa forma de antes. Com letras diferenciadas, melodias pegajosas e arranjos vocais bem feitos. O material traz a mesma alegria presente nos discos do início de sua carreira"
A Gazeta (ES) / Vitor Ferri


"Nos delirantes versos do blues Sonho Triste em Copacabana, fica claro que as inéditas foram compostas e gravadas com fidelidade à sonoridade e à ideologia do trio"
Isto É Gente / Mauro Ferreira


....O mérito mais evidente do álbum é a falta de pudor em ser popular, em que se pese a sofisticação dos arranjos, que muitas vezes remetem às experiências do início da carreira".
Jornal do Brasil (RJ) / Nelson Gobbi


" Amanhã consegue ser um disco atual, mesmo conservando uma sonoridade do passado e um jeito meio bicho-grilo de olhar a urbanidade e natureza".
Diário do Pará / Edgar Augusto


"Neste novo projeto estão presentes o timbre inconfundível de Rodrix, as cordas de aço de Sá, um delicioso clima lisérgico-hippie, além dos vocais já tão familiares dos discos anteriores".
Rolling Stone / Antonio do Amaral Rocha

EM TRÊS PONTAS...

Estávamos lá no Festival Musica do Mundo, promovido por Milton Nascimento e Wagner Tiso. E no camarim nos encontramos com Celsinho Blues Boy e Mallu Magalhães, numa foto da minha mulher, Verlaine de Sá.

sábado, 13 de março de 2010

SÁ, RODRIX & GUARABYRA: NOVO CD "AMANHÃ" NAS LOJAS

Oi, pessoal! vão desculpando a longa ausência, ocupado que estive - e ainda estou - com o lançamento do CD "Amanhã", o - infelizmente - último do trio Sá, Rodrix & Guarabyra. Seguimos em dupla, com saudades mas dispostos a perpetuar a lembrança do nosso querido Zé Rodrix em nossos shows, corações e mentes. Aos que perguntaram: "Amanhã" já chegou em lojas e sites. Mais fácil na Leitura, na Saraiva, na Cultura e nas Americanas.E apareçam no show de lançamento em SP, no SESC Vila Mariana, 3 e 4 de abril próximos.Meu abraço e carinho a todos vocês que me seguem.


A Vanessa, de Avaré, é fã mesmo... tatuou o logo da dupla na nuca!
O logo, sem nenhuma falsa modéstia, é uma pequena obra prima do designer Gernot Stiegler, que o fez pro nosso Lp de 1979, "Quatro". A capa do "Quatro" ganhou vários prêmios, com uma linda foto de Ella Durst e layout do Gernot.
Viva o Gernot. Viva a Ella. E viva a Vanessa, que "sofreu" por nós!