1.Por sua causa,
Foi preciso endurecer
E perder a ternura até mais não poder
2. Quem deve
Não treme:
Geme.
3. Fora com tudo
Que atrasa o fim do mudo
sábado, 21 de janeiro de 2012
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
VIDA DE ARTISTA
OS PRÉ-TUDO
Todos os que começam na música são pré: pré-instrumentistas, pré- compositores, pré-cantores, enfim, pré-tudo. E essa fase pré é de doer, na paciência e no ouvido dos outros, já que nem Mozart nasceu sabendo. Não me façam pagar aqui o mico de mostrar pra vocês as minhas primeiras letras, ou as minhas primeiras melodias: só meus pais gostavam. Não só gostavam como também insistiam para que eu as mostrasse aos seus amigos, Era de dar pena ver o esforço que precedia os aplausos e sorrisos amarelos... Mas não desanimei: consegui finalmente compor umas coisinhas aceitáveis, quer dizer, aceitáveis dentro da minha tchurma adolescente, que tentava também achar seus caminhos musicais, fossem eles rumo ao palco ou à platéia e lá pelos dezessete já me achava o máximo porque ganhava as menininhas. Só depois de percorrer mais um longo caminho até a completa profissionalização é que percebi o quão mínimo eu tinha sido. Mas como ser pós sem ser pré? Entendam bem que não estou desvalorizando os pré, apenas constato a verdade: ouvir ou trabalhar com um pré quando você já é pós exige uma poderosa dose de humildade. Você só chega à perfeição de aturar um pré quando consegue ser um cara humilde – ou falso – o suficiente para aplaudir e sorrir com o mesmo amarelão físico e mental com que foi recebido nos seus tempos - pré. A vida é essa, receber um pouco mais e dar um pouco menos.
Repare nas festinhas e reuniões adolescentes: há sempre um ou mais prés zumbindo por ali, aguardando ansiosos a hora da canja, quando poderão mostrar que ainda não sabem o que pensam saber. A coisa começa na hora da afinação: os prés parecem desconhecer a existência dos afinadores eletrônicos e insistem em confiar nos seus ouvidos. Aí, já viu... Fora isso, os prés tendem também a confundir incompetência com criatividade e lascam os mais esotéricos solos do planeta, justamente na hora em que o pré-cantor está quase afinando. Mas repare também nos amigos orgulhosos e nas (os) namoradas (os) dos prés, de olhos brilhantes e/ou apaixonados, marcando com fé o inevitável atravessado do inexperiente pré-baterista: eles são os motores daqueles teco-tecos que podem se transformar em jatos de última geração, movidos por sua persistência e pelo entusiasmo dos companheiros. Ou, se quiser um contato mais íntimo com os prés, dê uma zapeada no seu rádio: você vai ouvir alguns dos pré-sortudos que mesmo sem nunca sair dessa categoria ainda conseguem ganhar um troco com música, eh, eh, eh...
Nunca fui arrogante com prés, a não ser com aqueles cheios de si e vazios de talento o suficiente para me irritar. Lembro-me de um diálogo numa festa oferecida a nós depois de um show que resultou ser apenas uma armação para que tivéssemos que ouvir o filho do dono da casa, playboyzinho metido e mimado. Cansado pela sucessão de viagens e já meio tocado pelo excelente scotch do patriarca, fui obrigado a escutar meia hora de lenga-lenga pseudo intelectual do mané (os Manoéis que me perdoem) em questão, que fechou o discurso com esta pérola:
- O problema é que eu sou a verdade e as pessoas ainda não aprenderam a me ouvir.
Virou-se para a pequena platéia de puxa-sacos e parasitas que o aplaudira depois da última “música” que ele perpetrara na maior cara-de-pau e completou, tirando o cabelo da testa em falso fastio de pré-poeta:
- Tem que ser especial pra entender a verdade quando ela é dita.Depois de brevíssimos segundos de incredulidade geral em que nem mesmo os mais chegados a ele acreditaram no que ouviam, retomei o sangue frio, deixei o uísque na mesinha ao lado, olhei bem dentro dos olhos da figura e falei a única coisa que me veio à cabeça, um bordão de humorista de TV que eu ouvira na noite anterior:
- Então me engana que eu gosto.
Depois de outro segundo de absoluto silencio, a sala rompeu numa gargalhada uníssona. Aproveitei o momento de sucesso e fui saindo de fininho (ou de “grossinho”?), acompanhado pela minha fiel entourage. Fiquei surpreso quando nos percebi seguidos por mais de metade da sala, o que fez com que eu promovesse os ex-puxa-sacos-parasitas a “Gente Antenada”. Por uma estranha coincidência, nunca mais fomos chamados de volta àquela cidade. O cara deve ser dono de lá até hoje, o que significa que o Brasil perdeu um péssimo músico, mas certamente ganhou um político pior ainda. Por outro lado, assisti à ascensão de prés que eu jamais acreditaria que viessem dar em alguma coisa. Por exemplo, eu freqüentava, já quase pós-pré, mas ainda bem pré-pós, a casa tijucana do multi-instrumentista Helio Celso, um músico genial, injustamente desconhecido do grande público, mas referência em nossa geração. E lá ia sempre um baixista gordinho de óculos, que falava muito e – na época - tocava pouco. Nós o chamávamos de Luiz “Bicão”. “Bico de Luz” em gíria de músico é aquele que está “por fora”, quer dizer, não entende nada do ramo. Pois bem, Luiz “Bicão” estudou, batalhou, escutou e acabou por transformar-se no genial Luizão Maia, um dos baixistas mais requisitados e de maior personalidade da música brasileira, parceiro indispensável de gente como Chico Buarque, Gil, Gal, Ellis, Paulinho da Viola e inúmeros outros nacionais e internacionais. Meu querido amigo Luizão, com quem dei muita risada lembrando aqueles árduos tempos tijucanos, partiu precocemente, mas deixou no seu instrumento herdeiros do naipe de Artur Maia, seu sobrinho e Zé Luís Maia, seu filho.
Há então, prés e prés. Mas se você é pré, siga o conselho de um que já foi e sofreu muito por isso: estude à vera, ouça de tudo, pratique demais e antes de qualquer coisa saiba rir de si mesmo e aprender com os que riem de você. Muita calma nessa hora, quando a autocrítica lúcida é essencial. Seja um pré decente para ser um pós consciente, porque um pós consciente pode ajudar muitos prés decentes. Entendeu?
Se não entendeu, então nem se meta a pré!minha coluna "Vida de Artista" sai todo mês na revista BackStage
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
FÉRIAS!
Mar pra mim é uma fonte inesgotável de lembranças. Sentir o aroma da maresia e a pele crestada de sol e sal me trazem deliciosos flashbacks, desde as férias de infância na praia da Freguesia, numa então ainda bucólica Ilha do Governador, passando pela adolescência tijucana de fins de semana na Barra da Tijuca ainda longe de virar esse paliteiro (desculpem o ataque nostálgico, mas quem não viu a Barra na década de 60 perdeu o paraíso...) e desembocando na casa de Luhli e Luiz Fernando, em Filgueiras, onde passávamos o verão tocando, compondo e navegando. Desde que me mudei do Rio e troquei as maravilhas marinhas pelas serranas de Minas - que não são poucas nem menos maravilhosas - eu tinha programado em minha cabeça esses quinze dias de férias al mare e cá estou eu, pé na areia branca e corpo na água inacreditavelmente azul-turquesa. Ficam as fotos de Verlaine, minha mulher, pra compartilhar com vocês duas coisas: a felicidade de estar aqui e a saudade de estar aí. Dia 26 de novembro estaremos de volta aos palcos em Araxá. Até lá!
terça-feira, 18 de outubro de 2011
VIDA DE ARTISTA
luiz carlos sá
SALADA PAULISTA
Recém mudado para São Paulo, eu não estava entendendo nada. Menos ainda entendia à medida que tomava intimidade com a Megalópole. A cidade era grande demais e ofendia o orgulho de cariocas empedernidos como eu, para quem o Mundo acabava logo depois de Teresópolis a oeste e Angra dos Reis ao sul. Ao norte a gente não sabia muito bem o que existia e a leste o mar era nosso até a África...
Sim, eu já conhecia Sampa de outros carnavais, mas agora eu estava lá, entende? Sem conhecer direito a cidade fui inventar de morar nas bocas da Marginal, com o fedor atroz do Pinheiros invadindo minhas narinas nas noites daqueles invernos frígidos da década de 70, quando Megalópolis ainda não tinha efeito estufa suficiente e a gente assistia o termômetro da cozinha descer a quatro ou cinco graus centígrados, temperatura inimaginável para entes tropicais como nós, emigrantes de uma cidade de sonhos irrealizáveis. Ironicamente, a impossibilidade da realização desses sonhos foi o que nos empurrou para Sampa, atraídos pelo poderoso chamado de Rogério Duprat que convenceu a mim, Rodrix e Guarabyra que um destino melhor nos aguardava lá. E naquela noite em particular, cortando com a faca do próprio corpo a névoa catinguenta, eu começava a ter a certeza de ter cometido um erro fatal.Incapaz de chegar em casa sem congelar, entrei no Berolina, um pequeno restaurante alemão que costumávamos freqüentar . Um parênteses: eu, Rodrix e Guarabyra condicionamos nossa ida para SP à contratação de nossa banda como músicos de apoio no estúdio do Rogério, a Pauta, produtora de jingles e trilhas sonoras. Formamos então com Sergio Magrão, Flavio Venturini, Luiz Moreno, Cezar de Mercês e Sergio Hinds, alguns de nós casados e com filhos pequenos, uma pequena comunidade carioca , todos instalados às margens da avenida Morumbi , entre a marginal Pinheiros e a Godoy Colaço.
Chamei o garçom, um senhor lituano veterano da segunda guerra que mancava ligeiramente da perna esquerda, e comandei o usual lombo na páprica acompanhado de tequila, único combustível capaz de me levar em segurança até minha casa, que ficava a umas cinco quadras dali. Saboreando o inigualável lombinho do Berola e já reconfortado pela tequila caubói eu começava a pensar que a vida em São Paulo não era afinal tão ruim assim. Pela primeira vez em alguns anos estava ganhando o suficiente pra não ter que agonizar no fim do mês, passava o dia inteiro dentro de um estúdio, como sempre sonhara, tinha minhas músicas arranjadas pelo maestro dos meus sonhos e – embora fazer jingles não fosse minha atividade musical favorita – estávamos arrasando no mercado publicitário.
Mas lá pela terceira tequila lembrei que a noite lá fora trazia consigo a costumeira névoa malcheirosa e o pessimismo voltou a tomar conta de mim. Quando ia chamar o lituano e pedir a conta, quem me entra Berolina adentro?
- Moreno! – exclamei, espantando a solidão com a visão do amigo, baterista de primeira e gente finíssima, que nos seguira de corpo, alma e família pra São Paulo.
– Senta aí, vamos tomar uma.
Luiz Moreno não era de recusar um convite desses. Ele acabara de chegar do Rio e foi me contando as novidades do balneário. Por aquela época a gente ainda sentia falta de verdade da nossa terra mater e brincávamos de discutir qual dos nossos bairros era melhor, eu de Ipanema, ele de Copacabana. Ele logo percebeu minha melancolia:
- Bode paulista?
-Ahn,ahn...- confirmei.
- O meu já está passando.Levantei a cabeça e olhei bem nos olhos dele. Ele devia estar querendo me consolar, Morenão era um dos mais cariocas de nós...
- Como assim tão rápido? - perguntei, com um meio sorriso de dúvida.
- Ué, vou querer o que?
Tomou um gole e continuou:
-Aqui a gente pode fazer planos, tem um trabalho fixo, lugar pra ensaiar, tá todo mundo perto um do outro pra compor, a gente toca o dia inteiro e com uma hora de avião tô na minha praia...
Mostrou as pontas dos dedos, numa risada:
- Faz tempo que eu não tinha tanto calo de violão!
Cansado da viagem, Moreno tomou mais uma e foi-se. Fiquei ali pensando no quanto de verdade havia em seu pragmatismo simples, mas não simplista. Não era aquele o meu sonho também? Não era este o caminho que eu escolhera, ser músico, poder tocar e crescer profissionalmente com tranqüilidade, mesmo que para isso tivesse que fazer algumas concessões?
Minha vida prosseguiu com um sem número de idas e vindas São Paulo – Rio. Saí de lá em 75, voltei em 77, saí de novo em 81, retornei em 89 e abandonei Sampa em definitivo no começo do novo século, como se 2001 me ordenasse recomeçar. O futuro O Terço em sua segunda formação, originado desta primeira banda que levamos pra lá, não foi nossa última leva de migração carioca: levamos também, em finais dos 70, a Ponte Aérea, com Beto Martins, Constant Papineanu, Pedro Jaguaribe e Nonato. De todos nós, tirando os que perdemos para a força do destino - Moreno, Jaguaribe e Rodrix - só Magrão, Venturini e Hinds voltaram às origens mineiras e cariocas. Eu, particularmente, acabei por escolher Belo Horizonte, onde moro hoje e de onde não pretendo sair, uma cidade que me parece reunir o melhor de dois mundos. Mas o poder da Paulicéia Insólita permanece gravado em brasa na minha pele, uma tatuagem inapagável de felicidade e tristeza. Lá vivi alguns dos momentos mais intensos da vida, fiz centenas de amigos, perdi dezenas deles em noites de leveza ou loucura. E quando meu avião vai descendo por entre os prédios da Avenida Bandeirantes ou decolando sobre o Jabaquara, lembro de uma música que fiz depois dessa conversa com o Morenão, tentando inutilmente vencer a imensidão da Mega-Metrópole paulistana com pequenas ironias cariocas:
Saltitar nas muretas do Minhocão
Vamos nós pra Salada Paulista, amor
Ver as cobras pulando no Butantã
Vem viver na Salada Paulista, amor
Um pedaço pequeno a ninguém faz mal
Megalópolis brilha de noite mais forte que o Sol
O Pão de Açúcar ficou guardado
No brilho desbotado de um cartão postal
Ipanema é coisa de cinema e o sertão da Bahia está pra lá de Paris
Eu me sinto tão fora de casa, mas agora não há de ser nada
Até mesmo na barra pesada
A gente pode ser mais ou menos feliz
E viver na Salada Paulista, amor
Corações se encontrando em algum lugar
Debaixo de um chão de cimento
Num apartamento longe da beira do mar
Vem comer a Salada Paulista, amor,
Um pedaço pequeno a ninguém faz mal
Megalópolis brilha de noite mais forte que o Sol
Onde Fomos, Onde Iremos...
6 de agosto - Sá & Guarabyra e banda - Suzano, SP
12 de agosto - Sá & Guarabyra e banda - Campo Grande , MS
20 de agosto - Sá & Guarabyra e banda - Montes Claros, MG
26 de agosto - Sá & Guarabyra e banda - SESC Sao Jose dos Campos, SP
23 de setembro - Sá & Guarabyra e banda - Lagoa Santa, MG - praça pública
20 de outubro - Sá & Guarabyra - Teatro Guararapes - Olinda,PE
27 de outubro - Sá & Guarabyra & banda - Teatro Paulo Machado (SESC São Caetano) - São Caetano, SP
6 de novembro - Sá & Guarabyra, orquestra e coro - Virada Cultural de Curitiba, PR
26 de novembro - Sá & Guarabyra e banda - Araxá, MG
12 de dezembro - Sá & Guarabyra - Curitiba, PR (Evento Fechado)
21 de fevereiro - Sá & Guarabyra e banda - Rio Negrinho, PR - Festival Psicodahlia
domingo, 2 de outubro de 2011
VIDA DE ARTISTA
luiz carlos sáLá pelos 90 e não sei quantos, voltando de um show em Salvador, peguei um vôo pro Rio, já no princípio da noite. Minha poltrona era na parte traseira, o avião estava lotado e foi difícil chegar lá no fundo. A certa altura o “tráfego” engarrafou de vez com uma senhora que insistia em colocar um embrulho enorme no maleiro. Enfastiado, irritado e exausto pela série de shows que enfrentara até a véspera, fiquei olhando pro teto e pensando se não deveria ter seguido os conselhos da mater dolorosa e encarado a carrière diplomática tão desejada por ela. Estaria então, talvez, de saco cheio atrás de uma mesa numa embaixada no Butão em vez de estar também de saco cheio ali naquele vôo lotado. Foi aí que eu olhei de novo à frente e vi o Jamelão.
O velho sambista, àquela altura já passando dos oitenta anos, estava escanchado numa poltrona de corredor, umas duas fileiras à minha frente, conseguindo dormir profundamente naquele espaço exíguo que as companhias aéreas insistem em querer nos convencer que é suficiente para qualquer um, num pseudo-democrático e ganancioso nivelamento por baixo. À medida que a fila andou, movida pela desistência da senhora em enfiar Tóquio dentro de Paquetá , pude chegar mais perto. Desavisado da lotação que se completava naquela escala, Jamelão pusera os pés para cima, mal apoiados nos descansa-braços da poltrona da frente. Calçava chinelos e pude ver que seus pés estavam bastante inchados. Cheguei afinal na minha poltrona e sentei-me por coincidência ao lado de dois de seus músicos acompanhantes, um cavaquinista e um percussionista, este meu conhecido de estúdio. Soube então que eles vinham de uma apresentação em Belém e o avião fizera escala em tudo que era aeroporto possível de agüentar um Boeing daqueles. Agora finalmente iríamos direto pro Rio, mas todos estavam completamente acabados, saindo de um show que terminara às quatro da manhã e tendo que pegar o vôo das nove, pingando Brasil afora. Eles estavam preocupados com o “chefe”, diabético, idoso e hipertenso. Entendi também então a razão do inchaço dos pés do sambista, depois de tamanha odisséia para um senhor de oitenta e picos. E imediatamente minha vida se transformou numa espécie de sonho de Pollyana, tudo conforme eu sempre quisera: compor, tocar, cantar, viajar. O que mais eu podia desejar? “Quer moleza?” – perguntaria certamente meu filosófico e tijucano amigo Amaralzinho, de quem ouvi pela primeira vez essa jóia da sabedoria popular –“senta no pudim”.
Jamelão morreu aos noventa e cinco anos. Apesar do seu dito mau humor, que sempre me pareceu ser mais um humor ácido do que um mau humor de verdade, duvido que ele não tenha levado a longa e produtiva vida que pediu a Deus, com os aspectos positivos e negativos que uma boa vida real costuma proporcionar. Mas o fato de que nós músicos, uns mais outros menos, tenhamos um trabalho prazeroso, não significa que sejamos merecedores de um fim de estrada sacrificante. Digo isso lendo uma reportagem de capa do caderno cultural do Estado de Minas onde tomo conhecimento do estado de privação quase total – total, não fora o abrigo da filha – por que passa meu querido Helio Delmiro, violonista e guitarrista de primeiríssima linha, autor, entre outras mil intervenções do antológico solo de guitarra que brilha na gravação de “Caçador de Mim” por Milton Nascimento. Cardíaco, convalescente de uma angioplastia, Helinho vive agora da ajuda dos chegados, depois de passar uma vida tocando com e sendo admirado por gente como Tom, Milton, Cesar Camargo Mariano, Paul Horn, Lalo Schifrin, Sarah Vaughn, etc,etc, etc... E apesar disso continua estudando e cheio de planos.
Nossa profissão está cheia dessas histórias. Afinal de contas, somos os cigarras e poucos de nós prestam atenção à parte formiga, que não se desenvolve muito por força de nossa capacidade de sonhar com os impossíveis da vida, de acreditar que sempre haverá alguém acreditando em nós. Não estou aqui paternalizando ninguém, estou apenas constatando o quanto a vida artística pode ser injusta com grandes talentos. Mesmo assim, não podemos esperar que um mecenato de Estado seja a panacéia definitiva pra esse tipo de coisa, ou seja: só temos a problemática e estamos longe da “solucionática” na verdadeira areia movediça que é esse assunto.
Exceções tipo Chico, Caetano,Gil,Djavan, Benjor, Lulu, Rita Lee e outros que conseguiram estabilidade financeira e continuam trabalhando por mero prazer, sem interrupção sensível mesmo passados ou próximos dos sessenta anos e imunes ao mal de ter que abandonar sua verdade ou a qualidade de seu trabalho para sobreviver só me fazem lembrar da regra, da imensa maioria de artistas que sofre com o ”abandono” do público, sendo relegados a segundo plano pela implacável “política de renovação” das gravadoras que tentam a todo custo por a cabeça pra fora do lodo em que se afundaram desde que concederam aos diretores de marketing um poder maior que os dos diretores artísticos. E continuam tentando da maneira errada: em vez de ampliarem seu cast, com novos valores e nomes experientes que explorassem toda a gama de gêneros vacinando-se assim contra os modismos, insistem em fazer meia dúzia de artistas “da hora”, forçando barras e expondo-se ao fácil pirateamento. O pirata pode clonar três discos de vendedores de platina, mas jamais teria interesse em editar cem discos de pequenos vendedores. Esse nicho abandonado pelos grandes selos já está sendo dia a dia mais ocupado pelos pequenos e independentes. Ainda bem. Isso prova que dia após dia a burrice e a ganância têm pernas e vidas curtas.
É claro que a regra do jogo é outra. O uso inteligente da polêmica, à la Caetano e Lobão pode dar destaque a um trabalho consistente que de outro modo talvez não tivesse acesso efetivo à mídia; da mesma maneira a exploração de uma persona camaleônica que passeia à vontade entre o escândalo (à época)do Secos & Molhados e a discrição contida de um disco inteiro dedicado a Cartola, como fez Ney Matogrosso, canaliza para o grande público a exposição de um talento único como o de Ney, que de outro modo talvez tivesse caído no anonimato. Mas o que está em discussão aqui é a solidão final do artista, a impossibilidade que ele encontra, a certa altura de sua vida, de divulgar seu trabalho. Um amigo da minha idade menos favorecido por aquela sorte do sucesso que todos nós, artistas, precisamos, falou-me outro dia: ”a sensação que eu tenho é que é inútil compor, inútil tocar, inútil cantar... mesmo que eu faça a coisa certa ninguém vai me ouvir”. Essa é a triste regra.
Mas pra não dizer que estou sendo completamente negativo nesta crônica, ainda consigo enxergar a luz no fim do túnel. Só que quem acende essa luz não é o – argh, detesto essa palavra... - “sistema”, mas sim o público, que cada dia menos se preocupa com a idade de quem está no palco, ao contrário de nossa geração 60 que instituiu ingênua , mas necessariamente, diante de um mundo que envelhecia a olhos vistos - o chamado “poder jovem”, e aceita com prazer o fato de que experiência + talento podem dar bom caldo em qualquer época. Mas enquanto acontecerem casos como o de Helio e outros, principalmente instrumentistas, que dependem única e exclusivamente da estrada e do estúdio para sobreviver, vai continuar na minha cabeça a sensação de que é preciso que criemos de algum modo que não consigo imaginar a justa compensação para que esses músicos possam mostrar do que são capazes até o Último Grande Acorde, curtindo a sustentável leveza da idade...
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Mais Flagras da Vida de Artista...
O povo de João Monlevade, onde o show foi realizado em praça pública, compareceu em massa, apoiando a iniciativa do Aggeu, que além de excelente músico é médico na cidade e tem assim conhecimento de causa, lidando diáriamente com as tragédias que nela acontecem, como o recente acidente com o ônibus da banda 14Bis, que tirou a vida de nosso querido amigo Teacher, tio do baixista Sergio Magrão e assistente de produção da banda.
LANÇAMENTO DO LIVRO "SOLAR DA FOSSA"...
Gravei o "Almanaque" da GloboNews com o autor, Toninho Vaz (acima à esquerda), a apresentadora e repórter Sandra Moreyra (acima à direita) e o poeta e letrista Abel Silva (abaixo à esquerda), numa tarde super agradável no La Fiorentina, Leme, Rio.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
VIDA DE ARTISTA - minha coluna na BackStage
NANA E O ÚLTIMO DESEJO
Estou no Teatro Municipal do Rio, concorrendo ao 22o. Premio da Música Brasileira 2011, indicados que fomos (Sá, Rodrix & Guarabyra) na categoria de melhor grupo. Por sinal, já perdemos essa: Os Cariocas levaram o troféu, o que significa para nós uma derrota honrosa. Mas o espetáculo está valendo a viagem: o homenageado é Noel Rosa e começamos com Paulinho da Viola e sua filha Beatriz Faria, ele enfeitiçando a Vila com aquela indizível elegância de sempre, e depois, com a filha à altura do pai (o que é muito além do que poderia sonhar uma novata, mesmo contando com a genética), suingando o “Palpite Infeliz”. E logo em seguida, vejam só, “Feitio de Oração” com Dori Caymmi! É muito? Não. Porque agora Dori chamou Nana. E ela começou a cantar “Último Desejo”.
“Nosso amor, que eu não esqueço
E que teve seu começo
Numa festa de São João...”
Todos sabemos que Nana Caymmi é uma cantora extraordinária, timbre, técnica e emoção unidos numa combinação rara. Mas tenho a impressão de que hoje ela resolveu superar-se. A pequena - mas afiadíssima! - orquestra e o arranjo impecável ajudam Nana a navegar pelos versos únicos de Noel. Lá vai ela:
“...morre hoje sem foguete
Sem retrato e sem bilhete
Sem luar e sem violão...”
Se houvesse uma mosca voando no teatro, ela seria ouvida. O silêncio da platéia, sem um sussurro sequer naquele Municipal lotado, é quase tão deslumbrante quanto a Voz da Cantora.
“Perto de você me calo,
tudo penso, nada falo
Tenho medo de chorar...”
Quem está ficando com medo de chorar sou eu. Nos anos 50, mal passada década e meia da morte de Noel, eu era criança, nascido e crescendo na minha Vila Isabel. Comprava meus brinquedos nas Lojas Trindade, meus remédios chegavam da Farmácia Montanha, a comida vinha do então Armazém Sendas, minha escola era a República Argentina e eu brincava nas matinês carnavalescas da Associação Atlética Vila Isabel, da qual, aliás, meu pai era presidente de vez em quando. Sylvio Sá conseguia juntar seu trabalho duro e burocrático num cartório do Centro às rodas boêmias da Vila. Volta e meia chegava do batente já com a turma armada para a seresta noturna:”hoje vai ter, dizia ele. E à noite, na varanda da Major Barros 32 apartamento 201, os violões e cavaquinhos atacavam com tudo, varando a noite. Minha família toda cantava: pai, mãe, irmã mais velha, cunhado, primas... até eu tinha minha chance de subir na cadeirinha e cantar... adivinha qual era minha preferida? Isso mesmo: “Último Desejo”.
“Nunca mais quero teu beijo
Mas meu último desejo
Você não pode negar”
A essa altura aquela seletíssima platéia de músicos, compositores, maestros, arranjadores, instrumentistas, sertanejos, sambistas, roqueiros, enfim, todos os eiros, istas e ores que estavam ali a bordo de suas partituras mais ou menos sofisticadas, dos mais populares aos mais – digamos assim – sofisticados, estavam de bocas e corações abertos, mesmerizados pela espantosamente emocionante interpretação de Nana. Não ousávamos olhar uns para os outros, pois descobriríamos ali mesmo nossos segredos mais escondidos, desencavados por aquela tempestade de sentimentos que se projetava do palco. A essa altura Nana não era mais Nana, era uma espécie de médium que “recebia” Noel...
“Se alguma pessoa amiga pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga sempre que me adora, que você lamenta e chora
A nossa separação”
Quem, senão Noel, teria a sensibilidade de pedir à ex-amada este último desejo? Lamentar o bem vivido aos amigos, para que mais amigos fossem e o mal vivido aos inimigos, para que estes mais se afastassem...
“E às pessoas que detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é um botequim”
Nana está terminando. Seu gestual é simples, despojado, comandado apenas pelo sentimento, sem nenhuma ambição de forçar a barra, sem nenhum dramatismo extrapolado. Ela sabe mostrar a Lágrima Interior, aquela que aparece sem chorar. Sua voz grave e única ressoa por um Municipal em êxtase:
“Que eu arruinei sua vida
E não mereço a comida
Que você pagou pra mim”
O final é simples, sem nenhum rebuscamento. Nana se afasta do microfone. Depois de um milissegundo de “o que foi isso?!” o Teatro Municipal – platéia, balcões e torrinha – simplesmente explode, aos urros e aplausos. Levanto-me da poltrona, ejetado por aquela força emocional que só nos atinge em ocasiões muito, muito, especiais e urro junto com o resto do público. Todo mundo está de pé, todos estão de acordo comigo: nunca existiu um “Último Desejo” igual aquele que Nana nos mostrou.
Só não chorei ali por idiota que sou. Mas prometo aqui, de público, que no meu próximo encontro com Nana Caymmi – tomara que seja logo – vou abraçá-la com todo o meu carinho de amigo e chorar mansamente em seu ombro. Ela certamente vai me perguntar por que e eu vou dizer a ela que choro por aquelas noites de música em Vila Isabel, pelo sorriso feliz de meu ido pai, pela varanda tranqüila da Major Barros, pelas vozes que não posso mais ouvir, pela alegria de poder tocar, cantar e compor e pelo jovem de vinte e seis anos que nos proporcionou – através dela – aqueles três minutos e pouco essenciais para qualquer ser que considere a música uma parte importante de sua vida.
domingo, 22 de maio de 2011
AOS SEGUIDORES...
Queria agradecer aos seguidores deste blog, meus amigos virtuais, e avisar que apenas publico os comentários pois infelizmente não consigo ter tempo para respondê-los, como gostaria. Mas fiquem certo que leio todos.Seus depoimentos, elogios ou críticas, são essenciais para minha evolução pessoal e profissional, pois acredito que quem não ouve com atenção não consegue falar com expressão. Fiquem ligados no próximo lançamento do site da dupla, www.saeguarabyra.com.br, que está demorando um pouco por questões de liberação de direitos, mas deve estar na web em cerca de dois meses mais.
E - como diria meu amigo Tavito - abraços a quem de abraços e beijos a quem de beijos!
E - como diria meu amigo Tavito - abraços a quem de abraços e beijos a quem de beijos!
quinta-feira, 17 de março de 2011
Onde Fomos, Onde Iremos...
6 de agosto - Sá & Guarabyra e banda - Suzano, SP
12 de agosto - Sá & Guarabyra e banda - Campo Grande , MS
20 de agosto - Sá & Guarabyra e banda - Montes Claros, MG
26 de agosto - Sá & Guarabyra e banda - SESC Sao Jose dos Campos, SP
23 de setembro - Sá & Guarabyra e banda - Lagoa Santa, MG - praça pública
20 de outubro - Sá & Guarabyra - Teatro Guararapes - Olinda,PE
27 de outubro - Sá & Guarabyra & banda - SESC São Caetano - São Caetano, SP
6 de novembro - Sá & Guarabyra - Curitiba, PR
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
"AMANHÃ" : a crítica se manifestou sobre o último CD de Sá, Rodrix & Guarabyra
" 'Amanhã', produzido por Tavito, é uma bonita última prova de uma reunião de ótimos artistas e irmãos de vida e música"
O Globo (RJ) / João Pimentel
" O álbum 'Amanhã' se destaca por trazer o trio na velha e boa forma de antes. Com letras diferenciadas, melodias pegajosas e arranjos vocais bem feitos. O material traz a mesma alegria presente nos discos do início de sua carreira"
A Gazeta (ES) / Vitor Ferri
"Nos delirantes versos do blues Sonho Triste em Copacabana, fica claro que as inéditas foram compostas e gravadas com fidelidade à sonoridade e à ideologia do trio"
Isto É Gente / Mauro Ferreira
....O mérito mais evidente do álbum é a falta de pudor em ser popular, em que se pese a sofisticação dos arranjos, que muitas vezes remetem às experiências do início da carreira".
Jornal do Brasil (RJ) / Nelson Gobbi
" Amanhã consegue ser um disco atual, mesmo conservando uma sonoridade do passado e um jeito meio bicho-grilo de olhar a urbanidade e natureza".
Diário do Pará / Edgar Augusto
"Neste novo projeto estão presentes o timbre inconfundível de Rodrix, as cordas de aço de Sá, um delicioso clima lisérgico-hippie, além dos vocais já tão familiares dos discos anteriores".
Rolling Stone / Antonio do Amaral Rocha
O Globo (RJ) / João Pimentel
" O álbum 'Amanhã' se destaca por trazer o trio na velha e boa forma de antes. Com letras diferenciadas, melodias pegajosas e arranjos vocais bem feitos. O material traz a mesma alegria presente nos discos do início de sua carreira"
A Gazeta (ES) / Vitor Ferri
"Nos delirantes versos do blues Sonho Triste em Copacabana, fica claro que as inéditas foram compostas e gravadas com fidelidade à sonoridade e à ideologia do trio"
Isto É Gente / Mauro Ferreira
....O mérito mais evidente do álbum é a falta de pudor em ser popular, em que se pese a sofisticação dos arranjos, que muitas vezes remetem às experiências do início da carreira".
Jornal do Brasil (RJ) / Nelson Gobbi
" Amanhã consegue ser um disco atual, mesmo conservando uma sonoridade do passado e um jeito meio bicho-grilo de olhar a urbanidade e natureza".
Diário do Pará / Edgar Augusto
"Neste novo projeto estão presentes o timbre inconfundível de Rodrix, as cordas de aço de Sá, um delicioso clima lisérgico-hippie, além dos vocais já tão familiares dos discos anteriores".
Rolling Stone / Antonio do Amaral Rocha
EM TRÊS PONTAS...
Estávamos lá no Festival Musica do Mundo, promovido por Milton Nascimento e Wagner Tiso. E no camarim nos encontramos com Celsinho Blues Boy e Mallu Magalhães, numa foto da minha mulher, Verlaine de Sá.
sábado, 13 de março de 2010
SÁ, RODRIX & GUARABYRA: NOVO CD "AMANHÃ" NAS LOJAS
Oi, pessoal! vão desculpando a longa ausência, ocupado que estive - e ainda estou - com o lançamento do CD "Amanhã", o - infelizmente - último do trio Sá, Rodrix & Guarabyra. Seguimos em dupla, com saudades mas dispostos a perpetuar a lembrança do nosso querido Zé Rodrix em nossos shows, corações e mentes. Aos que perguntaram: "Amanhã" já chegou em lojas e sites. Mais fácil na Leitura, na Saraiva, na Cultura e nas Americanas.E apareçam no show de lançamento em SP, no SESC Vila Mariana, 3 e 4 de abril próximos.Meu abraço e carinho a todos vocês que me seguem.

A Vanessa, de Avaré, é fã mesmo... tatuou o logo da dupla na nuca!
O logo, sem nenhuma falsa modéstia, é uma pequena obra prima do designer Gernot Stiegler, que o fez pro nosso Lp de 1979, "Quatro". A capa do "Quatro" ganhou vários prêmios, com uma linda foto de Ella Durst e layout do Gernot.
Viva o Gernot. Viva a Ella. E viva a Vanessa, que "sofreu" por nós!
Assinar:
Postagens (Atom)





