quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

VIDA DE ARTISTA

   
OS PRÉ-TUDO

                Todos os que começam na música são pré: pré-instrumentistas, pré- compositores, pré-cantores, enfim, pré-tudo. E essa fase pré é de doer, na paciência e no ouvido dos outros, já que nem Mozart nasceu sabendo. Não me façam pagar aqui o mico de mostrar pra vocês as minhas primeiras letras, ou as minhas primeiras melodias: só meus pais gostavam. Não só gostavam como também insistiam para que eu as mostrasse aos seus amigos, Era de dar pena ver o esforço que precedia os aplausos e sorrisos amarelos... Mas não desanimei: consegui finalmente compor umas coisinhas aceitáveis, quer dizer, aceitáveis dentro da minha tchurma adolescente, que tentava também achar seus caminhos musicais, fossem eles rumo ao palco ou à platéia e lá pelos dezessete já me achava o máximo porque ganhava as menininhas. Só depois de percorrer mais um longo caminho até a completa profissionalização é que percebi o quão mínimo eu tinha sido. Mas como ser pós sem ser pré? Entendam bem que não estou desvalorizando os pré, apenas constato a verdade: ouvir ou trabalhar com um pré quando você já é pós exige uma poderosa dose de humildade. Você só chega à perfeição de aturar um pré quando consegue ser um cara humilde – ou falso – o suficiente para aplaudir e sorrir com o mesmo amarelão físico e mental com que foi recebido nos seus tempos - pré. A vida é essa, receber um pouco mais e dar um pouco menos.
                Repare nas festinhas e reuniões adolescentes: há sempre um ou mais prés zumbindo por ali, aguardando ansiosos a hora da canja, quando poderão mostrar que ainda não sabem o que pensam saber. A coisa começa na hora da afinação: os prés parecem desconhecer a existência dos afinadores eletrônicos e insistem em confiar nos seus ouvidos. Aí, já viu... Fora isso, os prés tendem também a confundir incompetência com criatividade e lascam os mais esotéricos solos do planeta, justamente na hora em que o pré-cantor está quase afinando. Mas repare também nos amigos orgulhosos e nas (os) namoradas (os) dos prés, de olhos brilhantes e/ou apaixonados, marcando com fé o inevitável atravessado do inexperiente pré-baterista: eles são os motores daqueles teco-tecos que podem se transformar em jatos de última geração, movidos por sua persistência e pelo entusiasmo dos companheiros. Ou, se quiser um contato mais íntimo com os prés, dê uma zapeada no seu rádio: você vai ouvir alguns dos pré-sortudos que mesmo sem nunca sair dessa categoria ainda conseguem ganhar um troco com música, eh, eh, eh...
                Nunca fui arrogante com prés, a não ser com aqueles cheios de si e vazios de talento o suficiente para me irritar. Lembro-me de um diálogo numa festa oferecida a nós depois de um show que resultou ser apenas uma armação para que tivéssemos que ouvir o filho do dono da casa, playboyzinho metido e mimado. Cansado pela sucessão de viagens e já meio tocado pelo excelente scotch do patriarca, fui obrigado a escutar meia hora de lenga-lenga pseudo intelectual do mané (os Manoéis que me perdoem) em questão, que fechou o discurso com esta pérola:
- O problema é que eu sou a verdade e as pessoas ainda não aprenderam a me ouvir.
                Virou-se para a pequena platéia de puxa-sacos e parasitas que o aplaudira depois da última “música” que ele perpetrara na maior cara-de-pau e completou, tirando o cabelo da testa em falso fastio de pré-poeta:
- Tem que ser especial pra entender a verdade quando ela é dita.
                Depois de brevíssimos segundos de incredulidade geral em que nem mesmo os mais chegados a ele acreditaram no que ouviam, retomei o sangue frio, deixei o uísque na mesinha ao lado, olhei bem dentro dos olhos da figura e falei a única coisa que me veio à cabeça, um bordão de humorista de TV que eu ouvira na noite anterior:
- Então me engana que eu gosto.
                Depois de outro segundo de absoluto silencio, a sala rompeu numa gargalhada uníssona. Aproveitei o momento de sucesso e fui saindo de fininho (ou de “grossinho”?), acompanhado pela minha fiel entourage. Fiquei surpreso quando nos percebi seguidos por mais de metade da sala, o que fez com que eu promovesse os ex-puxa-sacos-parasitas a “Gente Antenada”. Por uma estranha coincidência, nunca mais fomos chamados de volta àquela cidade. O cara deve ser dono de lá até hoje, o que significa que o Brasil perdeu um péssimo músico, mas certamente ganhou um político pior ainda.
                Por outro lado, assisti à ascensão de prés que eu jamais acreditaria que viessem dar em alguma coisa. Por exemplo, eu freqüentava, já quase pós-pré, mas ainda bem pré-pós, a casa tijucana do multi-instrumentista Helio Celso, um músico genial, injustamente desconhecido do grande público, mas referência em nossa geração. E lá ia sempre um baixista gordinho de óculos, que falava muito e – na época - tocava pouco. Nós o chamávamos de Luiz “Bicão”. “Bico de Luz” em gíria de músico é aquele que está “por fora”, quer dizer, não entende nada do ramo. Pois bem, Luiz “Bicão” estudou, batalhou, escutou e acabou por transformar-se no genial Luizão Maia, um dos baixistas mais requisitados e de maior personalidade da música brasileira, parceiro indispensável de gente como Chico Buarque, Gil, Gal, Ellis, Paulinho da Viola e inúmeros outros nacionais e internacionais. Meu querido amigo Luizão, com quem dei muita risada lembrando aqueles árduos tempos tijucanos, partiu precocemente, mas deixou no seu instrumento herdeiros do naipe de Artur Maia, seu sobrinho e Zé Luís Maia, seu filho.
                Há então, prés e prés. Mas se você é pré, siga o conselho de um que já foi e sofreu muito por isso: estude à vera, ouça de tudo, pratique demais e antes de qualquer coisa saiba  rir de si mesmo e aprender com os que riem de você. Muita calma nessa hora, quando a autocrítica lúcida é essencial. Seja um pré decente para ser um pós consciente, porque um pós consciente pode ajudar muitos prés decentes. Entendeu?
                Se não entendeu, então nem se meta a pré!


minha coluna "Vida de Artista" sai todo mês na revista BackStage

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